Terminei a leitura do livro Crime e Castigo e fiquei impressionado com tamanha realidade e exposição. Dostoiévski escreveu sobre culpa, mas também escreveu sobre vulnerabilidade. Como profissional do mercado de seguros, foi quase impossível não realizar uma análise sob a ótica do risco, da proteção e da ausência de estrutura social.
Marmieládov é um funcionário público destruído pelo alcoolismo, que perde estabilidade, compromete a renda familiar e conduz a própria casa a uma situação extrema de miséria. Após sua morte, Katerina Ivanovna, sua esposa, já com sérios problemas de saúde, fica praticamente sem recursos para organizar o enterro do marido e manter o sustento dos três filhos pequenos.
Nesse momento, a ajuda de Raskólnikov se torna decisiva. Mesmo vivendo também em extrema pobreza, ele entrega à família praticamente todo o dinheiro que tinha recebido de sua mãe, dinheiro que, indiretamente, vinha dos sacrifícios feitos por ela para ajudá-lo. Sem essa ajuda, Katerina dificilmente teria condições mínimas para arcar com o enterro do marido.
Mas a tragédia da família não termina ali. Katerina também acaba morrendo, consumida pela doença, pela pobreza e pelo desespero. Somente com a ajuda financeira de Svidrigáilov foi possível encaminhar as crianças para um orfanato, com alguma garantia material e perspectiva mínima de sobrevivência.
A enteada Sônia, filha de Marmieládov, talvez seja o retrato mais duro dessa ausência de proteção. Ela precisa se prostituir para ajudar o pai, Katerina e os irmãos pequenos. Não existe estabilidade, não existe amparo e não existe qualquer estrutura capaz de impedir que o sofrimento financeiro destrua também a dignidade humana.
Outro ponto que chama atenção é que Svidrigáilov sequer fazia parte daquela estrutura familiar. Ele chega a Petersburgo após a morte de sua esposa, Marfa Petrovna, e sua ajuda surge quase como uma solução ocasional e improvisada. Isto é, se ele não tivesse aparecido, talvez aquela família não tivesse recebido qualquer amparo.
O mais impressionante é perceber que Crime e Castigo foi escrito há mais de cento e cinquenta anos e, ainda assim, continua expondo situações extremamente atuais.
É evidente que Dostoiévski não escreveu a obra pensando em planejamento financeiro, proteção patrimonial ou mercado de seguros. Seu foco era humano, psicológico e social. Ainda assim, ao longo de praticamente toda a narrativa, a ausência de estabilidade financeira aparece como elemento constante no agravamento das tragédias.
A morte de Marmieládov se transforma em desespero absoluto porque não existe qualquer reserva, proteção ou estrutura capaz de sustentar aquela família. Katerina adoece e colapsa sem qualquer amparo. Sônia sacrifica a própria dignidade para garantir a sobrevivência da casa. E até a sobrevivência das crianças depende da intervenção ocasional de alguém que sequer fazia parte daquela família.
Talvez seja justamente isso que torne a obra tão pesada e tão real.
Quase todos os personagens vivem permanentemente a um imprevisto de distância do colapso.
E talvez seja impossível ler tudo isso hoje, trabalhando diariamente com proteção financeira e gestão de risco, sem perceber como pequenas estruturas de segurança poderiam ter mudado completamente o destino de muitos daqueles personagens.
No fim, Dostoiévski escreveu sobre culpa, sofrimento e miséria humana.
Mas também acabou registrando, ainda que indiretamente, o que acontece quando não existe qualquer rede de proteção entre as pessoas e a tragédia.
Junio Tosta
Grande parte do que compartilho aqui vem das experiências, conversas e situações que vivemos diariamente no mercado.