Será que estamos vivendo uma inversão de valores? Uma geração mais imediatista? Uma geração que não quer aguardar o amanhã? Uma geração que desiste com facilidade e troca de direção diante da primeira dificuldade? Ou seria tudo isso apenas uma evolução natural de prioridades, adaptadas ao mundo acelerado em que vivemos?
Há alguns anos, quando chegávamos à casa de alguém e a pessoa não estava, deixávamos um ramo de árvore como sinal de visita. E esperávamos, sem ansiedade, uma próxima oportunidade de encontro. Hoje, enviamos uma mensagem instantaneamente, adicionamos pontos de interrogação minutos depois e, se o retorno não vem, ligamos para reforçar que estamos aguardando. Não há mais silêncio, pausa ou expectativa.
Antes, contávamos os dias para assistir ao filme “lançamento” no domingo à tarde, suportando as propagandas como parte da experiência. Hoje, reclamamos de quinze segundos de anúncios e pagamos para eliminá-los. Antes, íamos à biblioteca pesquisar respostas — e nessa busca aprendíamos muito mais do que o tema principal. Hoje, nos frustramos quando a Inteligência Artificial não entrega a resposta perfeita logo na primeira tentativa. Antes, o registro de um momento dependia de poder e paciência: câmeras eram raras, fotos precisavam ser reveladas, a espera fazia parte do valor. Hoje, contamos curtidas nos primeiros segundos após a publicação.
Estamos ganhando tempo ou perdendo a capacidade de esperar? Será que evoluímos ou apenas aceleramos tudo — inclusive o cansaço?
Quando levo essa reflexão para minha vivência profissional, percebo movimentos ainda mais profundos. Sempre vivi o departamento comercial e lembro de quando uma venda era resultado de confiança, relacionamento e escolha consciente da melhor solução. Hoje, não raro, vence quem é mais barato ou quem entrega mais rápido, mesmo que isso não seja o melhor no médio prazo. O imediatismo virou critério.
Quando criança, aprendi com meus pais que primeiro a gente trabalha, aprende, cresce, ganha experiência e depois colhe oportunidades. Hoje, antes mesmo do esforço começar, a pergunta que surge é: “Tá bom, mas o que eu ganho com isso?”. A promoção que antes era conquistada, agora é exigida. E, se não vem logo, troca-se de empresa — como se propósito e aprendizado fossem acessórios dispensáveis.
Será que estamos diante de uma inversão de propósito ou apenas de uma nova maneira de enxergar o que faz ou não sentido? O acesso ilimitado a opções tornou o mercado mais exigente e competitivo, onde só os bons se destacam? Ou tão raso que qualquer coisa serve, desde que seja rápida, barata e confortável?
A tecnologia nos torna mais produtivos ou apenas mais superficiais? Estamos ficando mais eficientes ou menos profundos?
E é aqui que entra o outro lado da história: o lado de quem está do outro lado do balcão. A empresa deve se desdobrar diante do leilão constante de expectativas, tentando agradar a todos, mesmo que isso custe sua identidade? Ou precisa definir seu propósito com a consciência de que, inevitavelmente, perderá alguns pelo caminho?
Se tudo precisa ser instantâneo, como oferecer valor que só aparece no médio e longo prazo? Como construir parcerias sólidas em um mundo que troca sem culpa na primeira frustração? Como ensinar valor se a pressa não dá espaço para percebê-lo?
E mais: se a Inteligência Artificial pode responder quase tudo, vale a pena estudar ou basta aprender a digitar o prompt certo? E se eu só consulto a IA para tudo o que preciso saber, ainda faz sentido aprender? Como conversarei com outras pessoas se meu repertório não se formou? Aliás, é necessário mesmo se relacionar com outras pessoas ou o mundo está nos treinando para viver sem isso?
Não se trata de julgar. Trata-se de refletir. Porque essas perguntas insistem em aparecer, mais cedo ou mais tarde. Será que de fato existe uma inversão de valores? Ou o que existia antes pertence ao passado e o novo é simplesmente o natural? Será que o incômodo nasce não da mudança em si, mas do ritmo frenético com que ela nos atropela?
Tenho percebido que as mudanças acontecem com tanta intensidade que muitas empresas passam mais tempo correndo para se atualizar do que construindo experiências que realmente façam sentido. E aí surge a dúvida que tem tirado meu sono: se quase tudo se tornou relativo, qual é a resposta para o que realmente importa?
Talvez não exista resposta definitiva. Talvez nunca vá existir. Mas ainda acredito que, por trás dessa avalanche de velocidade e expectativas, o que permanece é o valor de quem consegue entregar sentido — mesmo quando o mundo insiste em pedir apenas rapidez.
No fim das contas, a pergunta que fica é simples e, ao mesmo tempo, enorme: estamos vivendo para ganhar tempo ou estamos perdendo tempo tentando viver rápido demais?
Junio Ferreira Tosta
Corretor de Seguros – Todos os Ramos
SUSEP nº 201010926